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sexta-feira, 22 de julho de 2016

E SE O MUNDO FOSSE SURDO?(reflexão a partir do filme "Sou surda e não sabia")

                 Se o mundo fosse surdo, e eu não, certamente me sentiria deslocada. Sentiria que há algo em mim que não há nos outros. Sentiria que poderia usar minha voz para me expressar, e que minha voz não seria reconhecida. Bem como os surdos utilizam os sinais, e suas expressões, e tantas vezes não são reconhecidos. Provavelmente, não me sentiria totalmente identificada com aquelas pessoas, pois meus sentidos estariam, em boa parte, ligados a minha capacidade auditiva, enquanto as outras pessoas teriam seus sentidos atrelados a outras. Se eu não tivesse acesso à linguagem de sinais, tal qual os surdos não têm acesso à linguagem oral, certamente me sentiria frustrada por não poder me identificar com aquelas pessoas. Se me encontrasse sozinha nessa situação, como tantas vezes surdos encontram-se sozinhos em meio a pessoas que ouvem, me sentiria sem identidade, deslocada, afastada dos demais, e principalmente menosprezada por não poder me inserir naquele grupo.
Acho muito interessante fazer esse tipo de reflexão. Penso na menina Sandrine do filme “sou surda e não sabia”. Ela é um exemplo de como uma pessoa pode sentir-se oprimida num meio em que não é compreendida, mesmo que seja no meio familiar com pessoas que a amam. É importante que façamos esse exercício de colocar-nos no lugar do outro para melhor compreendê-lo. Devemos perceber que muitas vezes os surdos ficam à margem de uma inclusão social pois isso lhes é imposto, uma vez que a acessibilidade não é plenamente oferecida a esse grupo. Devemos nos conscientizar e cada vez empreender mais, em especial nas nossas escolas, para que essa inclusão seja feita de forma construtiva, não só para o surdo, mas para toda a comunidade escolar.


IDENTIDADE LINGUISTICA

Somos intelectuais em busca de uma produção política legítima para a educação dos surdos, que significa uma política educacional permeada pelas necessidades e anseios dos alunos; uma política que condiz com nossa luta, com nossas experiências de vida, com nossos anseios pelos e ao lado de nossos pares surdos, em busca do direito de as crianças surdas terem, desde a mais tenra idade, a possibilidade de adquirir a Identidade Linguística da Comunidade Surda. Arthières (2004) tem razão quando descreve o pensamento de Foucault sobre a posição do intelectual específico, “que não expunha um discurso sobre os acontecimentos, mas atravessava fisicamente cada um deles, e era dessa experiência única que um verdadeiro diagnóstico podia emergir”.

Acho muito interessante pensar na "possibilidade de adquirir uma identidade linguística da comunidade surda". Vejo a língua como um dos grandes responsáveis pelo reconhecimento de identidade. Nós nos identificamos uns com os outros principalmente pela língua, entre outros aspectos. A língua carrega cultura, costumes, história, que nos une enquanto sujeitos que a compartilham.

Os surdos não devem ter simplesmente a "possibilidade" de terem essa identidade linguística, mas o direito.


Por isso me pergunto: até quando esse DIREITO será privado aos surdos que não têm acesso a uma educação bilíngue? Até quando as políticas públicas e educacionais privarão essas pessoas (principalmente as crianças) de constituírem sua IDENTIDADE?